O lado farsesco da sustentabilidade

Dispositivo multiuso para ocasiões diversas, a sustentabilidade está à disposição para qualquer tipo de customização que se faça necessária. Pode ser usada tanto em cases empresariais quanto em manifestos anticapitalistas. Na foto, o canteirinho de flores da Bae Systems, a maior fabricante de armas do mundo, em seu projeto de “paisagismo sustentável”.

  Em linhas gerais, é possível aproximar a ideologia do discurso da sustentabilidade de outra iniciativa que tentou rejuvenescer o próprio conceito de desenvolvimento. Por volta dos anos 1970, quando se intensificaram os efeitos da pobreza decorrentes dos modelos econômicos em curso no mundo ocidental, inventamos o “desenvolvimento equitativo”.

Por esse caminho, as pessoas passariam a ter acesso a oportunidades iguais, de modo a participar de forma equilibrada das oportunidades criadas pelos processos de desenvolvimento econômico. Não deu certo. As desigualdades só aumentaram.

Depois do desenvolvimento equitativo, surge a nova onda de rejuvenescimento do termo “desenvolvimento”. A sustentabilidade chega como tábua de salvação para um conceito agonizante e que ao longo da história vem recebendo penduricalhos, buscando esticar ao máximo a sua sobrevida.

Nessa nova moda, de acordo com Wolfgang Sachs, há uma onda que acompanha o discurso da sustentabilidade: os peritos precisam monitorar a água, o solo, a energia e as condições ambientais e climáticas. “Mas o desenvolvimento continua sendo aquilo a que sempre acaba se reduzindo, um aparato de intervenções para impulsionar o PIB” (SACHS, 2000. p. 121).

  A sustentabilidade é uma engenhoca a operar como vetor de simulação e dissimulação a serviço de causas, ideologias, governos, empresas, organizações sociais, igrejas.  É uma chave-mestra, à disposição para ornar correntes de pensamento, projetos corporativos e causas humanitárias.

Não era assim em seus primórdios, no final dos anos 1980, quando nasceu o conceito. A intenção, na época, era apresentar uma expressão que englobasse, em uma rota de pensamento, o conjunto das iniciativas de enfrentamento dos problemas socioambientais. Uma união de esforços, idealisticamente representada pela bandeira então batizada “desenvolvimento sustentável”: ação coletiva que implicaria esforços globais e sacrifícios locais, em nome da garantia das condições de vida para as gerações futuras, através do uso não predatório dos recursos naturais, retirando do planeta apenas o que ele é capaz de repor.

Celebração midiática

A aceitação foi imediata. Rapidamente, tornou-se fenômeno midiático, mas apenas em uma de suas facetas, a celebratória. Descartou-se a parte do sacrifício e partiu-se direto para os festejos necessários à legitimação farsesca de uma questão que finalmente uniria o planeta em torno de uma causa primordial.

Dessa forma, a sustentabilidade agradou pelo seu caráter espetacular, indolor, midiático e festivo. Rapidamente saiu do controle daqueles que esperavam usar o termo em causas “realmente transformadoras”, em ações efetivas para mudar o modelo predatório implantado pela revolução industrial e exacerbado pelo tecnocapitalismo.

O que ocorreu foi um fenômeno bastante simples: deixou-se de lado a parte do sacrifício e valorizou-se a parte midiática de consumo fácil, a celebração de um novo momento para a humanidade, o início da era da sustentabilidade, um caminho que nos levaria, a passos largos, rumo a um modelo de desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente equilibrado e saudável.

Não apenas a passos largos, mas a jato, talvez a bordo de um caça F-18, construído de forma socialmente responsável e ecologicamente equilibrada. Sim, porque empresas que fabricam bombas e misseis balísticos também são, agora, sustentáveis.

Tanques de guerra sustentáveis

Veja o caso da Bae Systems, líder no ramo da guerra eletrônica e maior fabricante de armas do mundo: “Usamos nossa expertise em engenharia para melhorar a eficiência de recursos e tornar nossos negócios e produtos mais sustentáveis”[1], diz a empresa em seu site.

“A empresa trabalha para incorporar os mais recentes desenvolvimentos em sustentabilidade”[2], completa, em um texto ilustrado por um tanque de guerra. Ou nas palavras de um dos diretores, Michael Hurley: “Nós equilibramos inovação com comercialidade e sustentabilidade a longo prazo”[3].

Tudo isso com altíssima preocupação com a pegada de carbono de bombas, misseis e aviões de guerra, como mostra os canteirinhos de flores, implantados nas unidades de Austin, Texas e San Diego, Califórnia [4].

O discurso supera a causa

Com tenacidade empreendedora, o mundo corporativo se apropriou da sustentabilidade. Hoje, o discurso de muitas empresas não está muito longe do discurso de organizações ambientalistas. Isso ocorre com frequência, por exemplo, em eventos em que estão reunidos empresários, ativistas sociais e gestores públicos. Em uma grande mesa, de frente para a plateia, essas pessoas estarão a defender suas posições acerca da sustentabilidade.

É muito difícil saber quem é o ambientalista, quem é o empresário e quem é o governante. Todos estarão unidos pela sustentabilidade, usando as mesmas expressões, provavelmente o mesmo tom de voz. O discurso tornou-se mais popular do que a causa.  O mundo tecnocapitalista deu-se muito bem com esse eficiente dispositivo de construir simulacros e o movimento ambientalista caiu nessa conversa.

À mesa do evento sobre sustentabilidade, todos usam as mesmas palavras e querem a mesma coisa: a felicidade e o bem-estar, com acesso a produtos e serviços “sustentáveis”, em um mudo “verde”, ecologicamente saudável e igualitário, de preferência sob a égide da ética minimalista e indolor que marca a sociedade contemporânea, desde que o sacrifício coletivo foi abolido em nome da busca incessante de prazer, felicidade, visibilidade e, é claro, consumo, a nova religião desses tempos em que se extingue o dever, substituído pelo reino encantado do “consumo responsável”, da reciclagem, do “orgânico”.

Tudo pode ser vendido sob os auspícios da sustentabilidade, de mísseis balísticos a vaginas de silicone; de automóveis a chupetas para recém-nascidos.

“O consenso ecológico de nenhum modo tolheu a corrida ao crescimento e ao consumo individualista, mas gerou uma eco-produção associada a uma ecologia do consumo”, diz Lipovetsky, (2009, p. 196).

Essa é a lógica do mundo atual, onde a sustentabilidade aparece, no máximo, como mancha midiática, como mito tranquilizador da barbárie consumista e predatória. A sustentabilidade, em essência, é uma farsa.

REFERÊNCIAS

SACHS, Wolfgang. Dicionário de desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2000.

[1] https://bit.ly/2XzGJYN

[2] https://bit.ly/2WlPZyk

[3] Corporate Responsibility Summary 2014.

LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade pós-moralista. São Paulo: Manole, 2009.

— 

* Texto adaptado da dissertação do autor:
O simulacro ecológico : falácia, poder e hegemonia no discurso do desenvolvimento sustentável (PUC/SP, Comunicação e Semiótica).

 

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