As empresas e os jogos de cena para encobrir violações

Empresário, consumidor e ativista saem bem na fotografia quando defendem a sustentabilidade. Quem perde é a natureza, a besta-fera que se recusa a entender seu papel nessa casa de espelhos, em que nada é o que parece.  

 

O discurso do desenvolvimento sustentável está por todos os lados. Aparece em planos de governo, relatórios empresariais, campanhas de organizações não governamentais.

Conceitos são difundidos em propaganda de automóveis, roupas, apartamentos, computadores, agrotóxicos, materiais de limpeza e alimentos. Somos convocados a “salvar o planeta”.

Fabricantes de armas, pecuaristas, bancos e mineradoras anunciam a firme disposição de “construir um mundo sustentável”. A causa é abraçada por organizações que vão do Greenpeace à Bayer/Monsanto. A sustentabilidade serve para todo tipo de negócio: defender a infância, produzir cigarros, salvar as florestas e os ursos polares. Ninguém é “contra” a sustentabilidade. Até a Vale é a favor da sustentabilidade. Dentre os seus quatro pilares, um deles é “ser reconhecida como a empresa mais sustentável do setor”:

                               A Vale quer ser reconhecida como referência em sustentabilidade, gerando cada vez mais valor para as comunidades vizinhas. Para isso, trabalha incansavelmente em sua Missão de transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável sem perder o foco na gestão para a performance.

Em um mundo economicamente administrado pela lógica do desperdício e da reciclagem estrutural, o discurso da sustentabilidade se encaixa muito bem à ética minimalista do mundo corporativo. O tema é aceito em seu viés celebratório e espetacularizado, mas rejeitado em tudo o que prescreve renúncia, parcimônia ou mudança da infraestrutura geoeconômica. 

Se não afetar o resultado do trimestre, somos sustentáveis! Do contrário, cria-se uma hiper-realidade midiática e opera-se no campo do discurso. Em um mundo de visibilidade extrema, você é o que aparenta ser. As empresas sabem que dificilmente serão pegas no flagra, principalmente se operam em regiões remotas. Voltaremos ao assunto em outros textos. 

O problema é que o valor da vida, se fizesse parte da gestão estratégica, comprometeria os resultados. 

Nessa ética não restritiva, instrumentalizada e hedonista, o setor empresarial emprega o discurso de forma a simular responsabilidades e dissimular práticas predatórias. Essa é a regra geral entre empresas. 

A “sustentabilidade”, então, é um jogo de cena. E nele, o cidadão aceita alegremente seu papel de “consumidor consciente”. Desde que, obviamente, a sustentabilidade não atrapalhe seus planos de consumo.  Ninguém deixa de comprar uma roupa porque foi fabricada por costureiras escravizadas pela indústria da moda. As vendas da Zara nunca caíram por causa disso, por exemplo.  

Se um dia você participar desses eventos corporativos sobre desenvolvimento sustentável, perceberá que o mais ferrenho capitalista e o mais radical ambientalista estarão palestrando sobre a mesma coisa. Usarão as mesmas palavras e receberão os mesmos aplausos. Ao final, trocarão lembrancinhas: o empresário ganha do ambientalista uma agenda em papel reciclável. O ambientalista ganha um cesto, confeccionado em um longínquo povoado da Amazônia. “É fabricado por uma comunidade apoiada por nossas ações de responsabilidade social”.

Como prova das boas práticas, fotos da comunidade ilustrarão o “relatório de sustentabilidade”. Na capa, estarão mulheres negras sinceramente felizes, homens orgulhosos e bem nutridos, crianças de sandálias reluzentes e patinetes multicoloridos. “Há uma preocupação com o entorno das nossas unidades produtivas”, dirá o empresário. “Firmamos um pacto pela sustentabilidade”, dirá o ambientalista.

Puro acochambramento neocínico, diria o filósofo Peter Sloterdijk.

 A sustentabilidade é um bom negócio. O tema é abraçado por empresários, ambientalistas, palestrantes, consultores, políticos, marqueteiros, gurus corporativos e visionários de toda ordem. O conceito é camaleônico. Como em um jogo de encaixes, se adapta a qualquer cenário. Não importa se é um evento da indústria de armas ou um seminário da ONU contra a proliferação dessas mesmas armas. O discurso da sustentabilidade estará presente. Todos querem, trabalham e anseiam por ela. Escapar dessa armadilha requer senso crítico e olhar atento.

Foto: Washington Alves/Reuter.

Referências:

SLOTERDIJK, Peter. Crítica da razão cínica. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

VALE. Relatório de Sustentabilidade 2017: https://bit.ly/2jgQyZm

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* Texto adaptado da dissertação do autor:
O simulacro ecológico : falácia, poder e hegemonia no discurso do desenvolvimento sustentável (PUC/SP, Comunicação e Semiótica).

 

 

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