Grandes empresas financiam o trabalho infantil no Brasil

12 de junho é lembrado como o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil. A data foi criada para alertar sobre a gravidade desse fenômeno.

Dentre os diversos fatores que levam à exploração de crianças e adolescentes, pouco se fala sobre a responsabilidade das grandes cadeias produtivas. Na obtenção de matérias primas, algumas empresas desconsideram a necessidade de monitorar suas redes de negócio. Ou o fazem de forma genérica, no campo do marketing. Apresentam relatórios nos quais descrevem ações impossíveis de serem mensuradas.

A ausência de transparência na cadeia produtiva de uma empresa, associada a outros fatores de verificação, é o primeiro indício de que o negócio pode estar envolvido em violações de direitos. Tem sido assim desde que começamos a pesquisar cadeias produtivas.

Agravamento do trabalho infantil

No Brasil, o enfrentamento do trabalho infantil não tem apresentado a efetividade esperada. O que se observa é o agravamento da questão em alguns setores, como alimentos e vestuário. Neste último, um dos destaques negativos é a produção de calçados. O trabalho infantil voltou a aumentar. A reversão observada no começo do século não se consolidou e os principais polos calçadistas, nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, apresentam um incremento no uso ilegal de crianças e adolescentes na base da cadeia. O fenômeno advém da maior pulverização do processo produtivo. Marcas de calçados e varejistas do vestuário financiam esse modelo de negócio, via fornecedores que violam direitos.

No setor de alimentos, a situação é gravíssima. Diversos produtos obtidos mediante a exploração de crianças e adolescentes chegam ao consumidor, protegidos por um manto de silêncio e invisibilidade.

O caso do cacau é o escândalo mais recente, mas não o único. Pesquisa realizada pela nossa equipe na Papel Social, durante mais de um ano, estabeleceu os elos que ligam o trabalho infantil a seis grandes multinacionais do setor de alimentos: as três maiores moageiras de cacau do mundo e as três principais varejistas de chocolate.

O ruidoso silêncio das empresas

Essas empresas controlam mais de 95% do chocolate vendido em lojas e supermercados brasileiros. As violações ocorrem na base do processo, nos polos produtivos do Pará e da Bahia.

Após a conclusão da pesquisa, o fluxograma completo da cadeia produtiva foi entregue à Organização Internacional do Trabalho (OIT) e ao Ministério Público do Trabalho (MPT), idealizadores do estudo e que agora têm a responsabilidade de liderar o processo de diálogo com as multinacionais envolvidas. Em algum momento, devem apresentar à sociedade os avanços alcançados.  

A tendência, no caso do cacau, não é das melhores. Desde a apresentação dos resultados, as multinacionais seguem em absoluto silêncio. Não se deram ao trabalho de conversar com seus clientes, os consumidores.  Ou dar explicações à opinião pública. Não compareceram à audiência pública realizada em Brasília, em novembro de 2018, e tampouco mandaram representantes quando apresentamos o estudo na Universidade de Harvard, dias 24 e 25 de abril de 2019, em um evento público, organizado pelo Fine Cacao and Chocolate Institute. 

Conivência do consumidor

O que leva empresas de grande porte a se calar diante de provas de que seus produtos são obtidos mediante exploração de crianças e adolescentes?

São várias as hipóteses. Uma delas é a certeza da conivência do consumidor. As empresas sabem que, no Brasil, o cliente quer preço e qualidade, mas ainda não se preocupa com as condições em que a mercadoria é obtida.

O caso Zara é o exemplo clássico. Mesmo após a empresa ser flagrada explorando costureiras escravas, em 2011, o negócio não sofreu nenhum tipo de abalo, do ponto de vista das vendas. Mesmo após a empresa ter sido condenada pela 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho, em 2017, o consumidor continua fazendo cara de paisagem. De fato, a imensa maioria não tem o mínimo interesse em acompanhar o caso.

Outra hipótese é a relação custo/benefício no dano à imagem. Sempre há o risco, mas é relativo. Veja o caso da Monsanto, talvez uma das empresas mais denunciadas do mundo. Durante anos, a empresa fez um trabalho muito sujo. No final, foi premiada. A Bayer comprou a Monsanto, em 2016, por US$ 66 bilhões. E o que fez a Bayer? Simplesmente extinguiu a marca Monsanto, em  2018. E segue o baile!

Ou o caso Nike. Poucos deixaram de comprar os produtos quando a empresa se tornou símbolo de exploração do trabalho infantil na Ásia. Ou ainda outro caso: Nestlé. Os executivos da Nestlé não perderam o sono quando a empresa foi identificada como grande exploradora de trabalho infantil na África. Nesse caso, o da África, a Nestlé explorava o trabalho infantil em fazendas de cacau.

O valor da vida

O fato é que as denúncias contra empresas já não tem mais o peso que tinha alguns anos atrás. Hoje, todo dia tem uma denúncia fresquinha, para o delírio de um mundo viciado em espetáculo.

De fato, está impossível concorrer com os patetas de Curitiba. Eles são imbatíveis em tomar conta do espectro midiático.  Em um cenário como esse, perdemos todos. Perdemos todos nós, principalmente as vítimas.

O fato é que estamos diante de um brutal dilema civilizatório. O advento do que chamamos “globalização”, associado às novas tecnologias de comunicação, nos deu a sensação de que havíamos finalmente alcançado um lugar melhor. Doce ilusão. Continuamos uns selvagens, mais dependentes do que nunca do consumo e do espetáculo. Se mais uma barragem da Vale desabar e destruir cidades inteiras, a cena vai parecer um filme velho, sem muito interesse. “Acho que já vi esse filme, quero novidades!!!”

Até hoje, pouco avançamos no entendimento da importância do valor da vida na fabricação de uma mercadoria. Esse item não entra nas planilhas corporativas com a mesma ênfase que outros itens, como a lucratividade. Além disso, os crescentes cortes nas áreas de fiscalização do governo federal garantem que nada muito significativo, do ponto de vista da repressão, deva ocorrer por um bom tempo. As empresas, novamente, ficam protegidas pelo manto do silêncio e da invisibilidade.

O enfrentamento ao trabalho infantil só vai ter efetividade quando:

  • Os clientes, (eu e você) começarmos a boicotar empresas e a exigir produtos que não escondam, por trás das embalagens, crimes e violações;
  • Os empresários derem aos direitos humanos o mesmo valor que dão aos resultados do trimestre. Ou ao bônus que recebem no final de ano;
  • O governo fizer a parte dele e parar de sabotar seus próprios mecanismos de fiscalização;  
  • Os sindicatos se reinventaram e voltarem a ter algum protagonismo na defesa dos interesses dos trabalhadores, e não na sobrevida dos seus dirigentes;
  • Os meios de comunicação deixarem de ter medo de perder anunciantes e passarem a denunciar, explicitamente, empresas que violam direitos humanos;

Nada disso vai acontecer a curto ou médio prazo. Enquanto isso, reze pelas crianças. Se for ateu, faça a diferença, troque seu cachorro por uma criança pobre.

Foto: Tatiana Cardeal

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