O dia em que a vovozinha comeu o lobo mau

Ou…… como as corporações neutralizaram o movimento ambientalista.

Marques Casara

O planeta está sobrecarregado, poluído, sufocado por práticas predatórias. E todos navegam no discurso da sustentabilidade, o caminho para a “construção de um mundo melhor”. Navegam todos na mesma barcaça: ambientalistas, pesquisadores, CEOs, gurus, visionários.  

Da parte dos ambientalistas, pouco ou nada avança. Há duas muralhas à frente. A primeira é o modelo de desenvolvimento, que ignora o valor da vida, apesar de todo o palavreado. A segunda muralha é a paradoxal relação entre organizações ambientalistas e seus financiadores. Não são poucas ou desconhecidas as organizações financiadas por empresas notadamente predatórias.  

Não há como se livrar da falta de nexo de ser financiado pelo próprio objeto que se questiona. Ou melhor, que deveria se questionar.

Não há, no futuro próximo, maneiras de transpor essas muralhas. O movimento ambientalista está emparedado pelo sistema que o sustenta. Ao optar pelo caminho de um suposto diálogo igualitário com as corporações, o ambientalista adotou o que parecia ser a melhor maneira de mudar as coisas. Mas, ao aceitar a ilusória igualdade de forças e entrar no jogo, o fez desprovido de recursos materiais para sustentar suas posições, bem como desprovido de recursos midiáticos equiparáveis aos das corporações.

Com o pires na mão, o ativista viu-se em uma caverna de lobos.  

Armado de um bem-intencionado discurso sobre os malefícios das mudanças climáticas e da depredação ambiental, o ambientalista partiu para a correlação de forças, certo de que a legitimidade da causa lhe proporcionaria vantagem estratégica.  E de que haveria massa crítica na sociedade, para apoiá-lo.

Ao entrar na toca do lobo, para o seu espanto, o ambientalista não se deparou com a besta, mas com uma doce e singela vovozinha. E a simpática senhora estava provida de um discurso absolutamente idêntico ao seu. Uma vovozinha tecnologicamente avançada e dotada de capacidade argumentativa em defesa da causa ambiental.

Sem que o ambientalista percebesse a tempo, a velinha tomou o lugar da besta-fera. Sim, porque o mundo corporativo percebeu bem a tempo que precisava substituir o colaborador. Do jeito que as coisas andam, se o lobo devorasse um ativista, daria a senha para atrair dois ativistas, agora com duas causas. E não há nada pior do que enfrentar uma causa. 

Neutralizaram o ambientalista, assumindo três posições no tabuleiro:

  1. A doce velinha corporativa reconheceu a “total legitimidade” da reivindicação do ambientalista. Isso garantiu o embate no campo do suposto diálogo igualitário. Vovó lançou mão de suas chávenas de chá e chamou o ambientalista para ouvir seus apelos. E solidarizou-se com ele. “Sim! Você está certo! Precisamos salvar o planeta”.
  2. Depois de ouvir atentamente, a doce velinha chamou o problema para si.  Assumiu o discurso da “sustentabilidade”. Investiu pesado em propaganda e neutralizou a “causa”, a suposta vantagem estratégica do ambientalista. Tudo isso com muito mais dinheiro, velocidade, infraestrutura midiática, propaganda, flexibilidade ética etc etc.  Tudo a favor. Vovó não precisa enfrentar o ativista.
  3. Vovó percebeu, bem antes do ambientalista, que não havia massa crítica suficiente para colocar seu negócio em risco. Ninguém tem mais tempo para salvar o planeta, exceto no campo do discurso. Queremos consumo e espetáculo. Como diria o velho Horkheimer, sabemos que a preservação do indivíduo requer empenho para o indivíduo preservar a própria estrutura que o domina.

Se o ambientalista pudesse vislumbrar o cenário além da cegueira platônica das sombras projetadas na caverna, veria, ao fundo, a ossada do velho lobo, vincada pelas mandíbulas da vovó.  

Sim, caímos em uma armadilha. A sustentabilidade virou um dispositivo de poder, conservador e totalitário. Um mito tranquilizador para espíritos sensíveis. Foucault remexe na cova cada vez que um ambientalista profere chavões à sustentabilidade.

Chegamos ao ponto de acreditar que separar o lixo e reciclar latinhas teria alguma importância para mudar o mundo. Essa é a grande pegadinha. Ninguém fala em diminuir o consumo e parar de comprar tranqueiras. Caímos no embuste de que deveríamos seguir firmes nas compras e na geração de lixo, só que agora separando as latinhas. É o jogo indolor da falácia conservadora ambientalista corporativa.

O planeta não precisa ser salvo. Saiu-se muito bem nas quatro ou cinco extinções em massa que tivemos, desde o surgimento da vida.

Quem deveria ser salvo já está morto, jogado nos fundos da caverna.

Somos a bola da vez. Mas não se desespere, acalente-se com a vingança. Quando o bioma se tornar impróprio para humanos, a velha também vai pro saco. Restarão os ambientalistas, tentando entender que sombras são aquelas.

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