Uma economia “verde” e vegana não é sustentável. Saiba o motivo.

“Melhorar a ecoeficiência em um sistema voltado para o consumo e o crescimento não salvará o meio ambiente”, diz o pesquisador Vija Kolinkivadi.

Um artigo do pesquisador de Vijay Kolinkivadi, da Universidade de Quebec, apresentou resultados convergentes à minha pesquisa acadêmica de 2016*, na qual apresentei a tese de que a sustentabilidade é um discurso falacioso, ao não promover mudanças no cerne do atual modo de vida, focado no crescimento contínuo e no consumo exacerbado.

O autor tem como objeto de análise a construção do novo campus de ciências da Universidade de Montreal, apresentado como exemplo de sustentabilidade: “edifícios com certificação LEED para reduzir o impacto ambiental, estruturas de coleta de água da chuva, iluminação e reciclagem de calor com eficiência energética, infraestrutura para veículos elétricos e bicicletas, muito verde e, no geral, uma pegada de carbono mínima”.

Um cenário aparentemente ideal para o advento de um modo de vida sustentável. Com a vantagem de influenciar todos os bairros do entorno, revitalizados pelo crescimento econômico gerado pela chegada de empresas de tecnologia “verde”, aumentando a “ecoeficiência” e movimentando uma economia limpa e saudável.

Segundo o autor, a “revitalização” se dará pela expulsão dos pobres e dos comerciantes tradicionais, uma gentrificação justificada pela implantação da economia “verde”: redes de restaurantes veganos, lojas ecologicamente corretas, cafés orgânicos e toda a parafernália que acompanha a propaganda de iniciativas do gênero.

É a sustentabilidade impulsionada pelo mercado. Um sistema político e econômico, segundo o autor, que lucra pela enganação de pessoas dispostas a acreditar em um capitalismo “mais verde”.

Kolinkivadi faz uma crítica contundente ao que os teóricos da sustentabilidade chamam de “redução das externalidades” dos sistemas predatórios, movimentando a economia para um modelo mais equilibrado, sustentado pelo aprimoramento tecnológico dos sistemas produtivos. Esse é o cerne da ilusão de que a tecnologia nos permitirá seguir consumindo como loucos, só que agora com menos impacto, mais consciência ambiental e produtos menos poluentes.

Essa conta nunca vai fechar em um modelo que tem como meta o crescimento e o aumento do consumo. Segundo o autor e segundo a ampla análise que faço na pesquisa mencionada acima, a sustentabilidade é o biombo para iludir os espíritos sensíveis.

Os problemas ambientais passaram a ser enquadrados como uma questão de ineficiência que poderia ser resolvida pela tecnologia e pela melhor gestão de recursos, o que efetivamente neutralizou o ambientalismo politicamente orientado das décadas de 1960 e 1970.

As economias baseadas no crescimento estão no centro dos desastres ambientais que enfrentamos hoje; tornar nossos bens, atividade econômica ou infraestrutura “mais verde” e mais eficiente sem uma grande revisão do sistema econômico global não é uma solução de longo prazo.

O autor também desmonta a cultura do veganismo e sua propaganda do ganha-ganha: bom para o planeta, bom para a saúde e bom para os animais, com a redução de danos vinculados as mudanças climáticas.

Uma crescente demanda por produtos veganos também seria devastadora para a biodiversidade, porque dependeria de monoculturas de frutas e hortaliças (principalmente soja). Também seria necessário expandir a terra arável cortando florestas e aumentando o consumo de água para a agricultura. Aprofundaria também a exploração de mão-de-obra já existente de populações vulneráveis e incentivaria ainda mais os grandes proprietários e empresas a abusarem dos pequenos agricultores.

E prossegue:

De fato, o capitalismo orientado para o crescimento “venderá” seu veganismo como uma prática nobre que reflete seus valores e beneficia sua saúde, mas não lhe contaria toda a história sobre as consequências sociais e ecológicas em curso e de longo prazo do veganismo industrial.

O autor apresenta uma saída com a qual eu concordo: e preciso abandonar o foco no crescimento sem fim orientado para o lucro como imperativo moral das relações humanas e comerciais. E focar em uma economia solidária e inclusive

Recomendo a leitura completa do artigo. Indicação abaixo.

Link para o artigo:
Why a hipster, vegan, green tech economy is not sustainable
Foto: Vijay Kolinjivadi/Al Jazeera

Artigo relacionado:
O dia em que a vovozinha comeu o lobo mau
Ou…… como as corporações neutralizaram o movimento ambientalista.

* O Simulacro ecológico: falácia, poder e hegemonia no discurso da sustentabilidade (PUC/SP, 2016)

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