A Nestlé e a sistemática exploração do trabalho infantil no cacau

Será que as multinacionais do chocolate estão dispostas a sacrificar resultados para estancar a exploração do trabalho de crianças e adolescentes?

Marques Casara

No dia 5 de junho, o jornal The Washington Post publicou uma reportagem que mostra o lado mais trágico da cadeia produtiva do chocolate. Diz o jornal: “Mars, Nestlé e Hershey prometeram há quase duas décadas parar de usar o cacau colhido por crianças. No entanto, grande parte do chocolate que você compra ainda começa com trabalho infantil”.

O cenário na África, segundo a investigação do jornal, é de epidemia de trabalho infantil na produção de cacau, a principal matéria prima do chocolate. As multinacionais envolvidas prometeram resolver a questão, mas não cumpriram, segundo a reportagem. Perderam três vezes o prazo para eliminar o trabalho infantil em suas cadeias produtivas: 2005, 2008 e 2010. As promessas haviam começado em 2001, quando o cenário foi denunciado pela primeira vez e as empresas assinaram o compromisso de enfrentar a questão.  

Com um faturamento anual que ultrapassa USD 100 bilhões, as empresas investiram USD 1 milhão por ano para tentar erradicar o problema. Isso dá 0,001% do faturamento. Ficou óbvio que não vão mexer no lucro para evitar graves violações dos direitos humanos em suas cadeias produtivas. As empresas não aprenderam a levar em conta o valor da vida. E o mais surpreendente é que vendem chocolate, alimento associado à alegria, confraternização, prazer.

Cenário brasileiro

As violações também ocorrem no Brasil. Pesquisa de autoria deste autor, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Ministério Público do Trabalho (MPT), identificou que milhares de crianças e adolescentes trabalham na cadeia produtiva do cacau.

Mais de 90% de todo o cacau produzido no Brasil está contaminado pelo trabalho infantil. Nossa pesquisa foi apresentada em maio, em um evento na Universidade de Harvard, a convite do Fine Cacao and Chocolate Institute. Também foi apresentada em audiência pública em Brasília, no segundo semestre do ano passado.

Se na África as empresas se comprometeram a erradicar o problema e não cumpriram, no Brasil fizeram cara de paisagem. Não compareceram aos eventos mencionados acima e sequer se manifestaram publicamente sobre o problema.

O papel da Nestlé

A Nestlé lidera a venda de chocolate no Brasil e em boa parte do mundo. Aqui no país, é ela quem deveria puxar toda a cadeia produtiva para formas mais dignas de produção. Mas a empresa, até o momento, não aplica mecanismos eficientes de rastreamento da cadeia produtiva, tornando-se assim uma das principais financiadoras de uma estrutura perversa e que não leva em conta o valor da vida.

Existem cálculos de quanto deveria ser investido para enfrentar o trabalho infantil na cadeia do cacau. Um modelo criado por economistas mostra que um aumento de 2,8% no preço do chocolate daria para eliminar as violações mais extremas.

Esse investimento seria um pouco maior do que o 0,001% gasto pelas empresas na África. Então, a questão fundamental é a seguinte: será que as multinacionais do chocolate estão dispostas a sacrificar os resultados do trimestre para estancar a exploração do trabalho de crianças e adolescentes em suas cadeias produtivas? O silêncio da grandes marcas sobre o assunto, até o momento, nos dá uma pista sobre qual é a resposta.  

É possível produzir sem violar direitos

O silêncio das grandes marcas também penaliza quem está fazendo a coisa certa. Um pequeno percentual de empresas, fabricantes de chocolates especiais, tem feito um excelente trabalho em suas cadeias produtivas. Produzem e vendem chocolate de forma digna, com total controle sobre a cadeia produtiva e sem explorar crianças e adolescentes. Boa parte dessas empresas estão vinculadas a Associação Bean To Bar Brasil. Se os pequenos podem, por que a Nestlé não pode?  

Foto: Tatiana Cardeal

Documentário sobre exploração do trabalho infantil na cadeia produtiva do cacau brasileiro:

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