Governo brasileiro protege criminosos que devastam a Amazônia

Com a conivência do Estado brasileiro, o que se vê na Amazônia é uma operação para destruir o último elo de resistência: os povos tradicionais (foto).

Marques Casara
Fotos: Vitor Shimomura

Viajo pela Amazônia desde 2002, conduzindo pesquisas sobre impactos sociais e ambientais em cadeias produtivas. Em 2019, algo mudou: nunca foi tão clara a intervenção governamental a favor de ações predatórias.  

No entorno e dentro das unidades de conservação, o desmatamento bate recordes, inclusive com o uso de aviões a despejar combustível sobre a mata, para realizar queimadas em larga escala. Famílias coletoras estão sendo expulsas por jagunços armados. Os órgãos encarregados de coibir esse tipo de prática estão inoperantes: não têm nem gasolina para abastecer os barcos que ainda funcionam, já que uma parte deles está parada por falta de peças de reposição. 

Alguns dados recentes:

  • André Borges, no Estadão, mostra que a devastação bate recordes em unidades de conservação. São florestas protegidas e que deveriam ser monitoradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgãos paralisados pelo atual governo.
  • O desmatamento patrocinado por multinacionais segue fora de controle, de acordo com relatório do Greenpeace.
  • Multinacionais do setor de alimentos anunciam que não cumprirão as promessas de contenção do desmatamento da Amazônia, segundo Denis Balibouse, na Reuters.
  • Reportagem de Rute Pina, no Brasil de Fato, mostra que o governo Bolsonaro cortou 95% da verba destinada a combater mudanças climáticas.
  • Priscilla Arroyo, do portal De Olho nos Ruralistas, informa que o corte de 24% dos recursos do Ibama ampliará ainda mais os índices de desmatamento.

Os moradores de unidades de conservação, boa parte deles integrantes de comunidades extrativistas, representam a última fronteira da resistência aos madeireiros ilegais. São essas pessoas, cada vez mais, os alvos preferenciais das ações criminosas.

Comunidade extrativista sob ameaça de madeireiros ilegais.

Não são madeireiros tresloucados munidos de motosserras, mas uma operação coordenada, vinculada a grandes cadeias produtivas. O atual ataque às áreas de conservação e aos seus entornos está sendo feito com estratégia e logística complexa.

Como se operacionaliza o ataque às áreas protegidas:

  • Planejamento da operação:
    • Mapeamento, análise de risco e delimitação da área a ser desmatada;
    • Definição de como se dará o escoamento da madeira: guias de transporte fraudadas; documentos de origem florestal também fraudados;
    • Definição de quem deverá ser subornado durante o processo;
    • Definição do que será feito com a terra após o lucro de curto prazo com a venda da madeira: integração a grandes cadeias produtivas como pecuária, grãos, reflorestamento industrial etc.
  • Logística e infraestrutura:
    • Contratação de homens, caminhões, tratores, motosserras, combustível, aviões de pequeno porte, armamento.
    • Abertura de estradas clandestinas para escoamento da madeira até ramais já existentes ou estradas maiores;
    • Provimento rotineiro de refeição, água e demais necessidades dos grupos de trabalho.
  • Incidência política:
    • Políticos locais, regionais e federais protegem os grupos criminosos em ações de lobby ou de suborno junto as autoridades.
    • Pressão, na esfera federal, para evitar operações repressivas às atividades ilegais.
  • Disponibilização de capital:
    • Dinheiro para combustível, caminhões, tratores, motosserras, munição, alimentação, pagamento de pessoal, escoamento da madeira, subornos etc.
  • Definição de metas:
    • Geração de lucro de curto, médio e longo prazo.

Cadeias produtivas

Não é uma operação para madeireiros pobres que vivem no meio da mata. São estruturas vinculadas a grandes cadeias produtivas: exportação de madeira, pecuária, soja ou eucalipto, a depender da região. O que nunca muda é que sempre há um financiador que faz a ponte entre a ação predatória e os elos superiores da cadeia, onde estão grandes empresas nacionais ou multinacionais. Essa metodologia vem sendo identificada em diversas pesquisas de cadeias produtivas que temos realizado na região Amazônica.

Desmatamento predatório chega às unidades de conservação.

O Estado como ente criminoso

O governo brasileiro protege os criminosos. Exemplos:

  • Ataques políticos do presidente Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente aos seus próprios agentes de fiscalização e repressão. São inúmeros casos. O discurso é claramente a favor do desmatamento da Amazônia e de outras áreas florestais existentes no país;
  • Corte de verbas: Ricardo Salles, do Meio Ambiente, mandou cortar 24% do orçamento do Ibama. O corte tem foco: ICMBio, responsável pela fiscalização das áreas de conservação que atualmente registram recordes de desmatamento. 

O governo se torna agente criminoso ao ser conivente e proteger criminosos. Ricardo Salles age como milícia inserida no coração da estrutura: opera para destruir a própria estrutura que representa. Em seis meses, o governo Bolsonaro inviabilizou por completo o ICMBio.  

O que vi em campo

A operação de proteção das ações criminosas, protagonizadas pelo governo brasileiro, está em plena operação em diversas unidades de conservação. Nossa equipe visitou algumas delas nos últimos meses. São locais de difícil acesso, em viagens de barco que duram vários dias e requerem investimento em locação da embarcação, muito combustível, alimentação, guias locais, definição de áreas para pernoite etc. Não é uma tarefa simples andar pela Amazônia.

Em duas dessas viagens, fomos acompanhados por agentes do ICMBio. Os agentes não visitavam as reservas fazia tempo. Motivo: barcos quebrados e falta de combustível para abastecer os que estavam em funcionamento.

Ao chegar às comunidades, o cenário é de desolação e medo. Os madeireiros estão derrubando a floresta e inviabilizando as atividades extrativistas.

Relatos dos moradores:

  • Grupos armados, formados por 30 a 50 homens com motosserras, colocam abaixo as árvores provedoras do extrativismo;
  • Comunidades são expulsas sob ameaça de morte;
  • Tratores abrem ramais clandestinos para o escoamento da madeira;
  • Após a retirada das árvores de grande porte, aviões despejam líquido inflamável e depois tocam fogo;
  • Com o final das chamas, os aviões voltam. Despejam semente de braquiária, uma planta invasora. Onde nasce a braquiária a floresta não volta mais, dizem os moradores.

Na nossa viagem mais recente, fomos vítimas de sabotagem. Durante à noite, o barco em que estávamos foi solto na correnteza e teve todo o combustível retirado, prejudicando a logística e quase inviabilizando o trabalho.  Ao final, voltamos em segurança, deixando para trás comunidades assustadas pelos atuais acontecimentos. Pessoas preenchidas por uma brutal sensação de insegurança e impotência.

A Amazônia sofre um ataque sem precedentes. As comunidades locais não têm força para resistir e o ambiente interno do país não é dos melhores. A situação é muito grave.

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